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CONCERTO

USP FILARMÔNICA

7 JUL, DOMINGO, 17H

TEATRO DE VERMELHOS

Regência: Rubens Russomanno Ricciardi

Direção cênica: Ansgar Haag
Figurinos e cenografia: Kerstin Jacobssen
Mandrião (Schlendrian) – o pai: Luis Felipe Sousa
Betinha (Ließgen) – sua filha: Raquel Paulin
Narrador (Erzähler): Daniel Umbelino
Bailarina: Isis Alves Gallo Antonelli
Coreografia: Marisol Gallo
Violino spalla e solista: Alexandre Alves Casado

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RELEASE

 
A cantata Sobre o café de Bach & Picander
 
A música é de Johann Sebastian Bach, definido por Villa-Lobos como “folclore universal” – ou seja, um pilar da música universal. De fato, Bach dispensa apresentações. Trata-se de um imortal que, juntamente com Mozart, o outro pilar, está no Olimpo, entre os deuses Apolo e Dionísio. Já o libreto é de Christian Friedrich Henrici, compadre de Bach, mais conhecido pelo pseudônimo árcade de Picander – poeta satírico iluminista com ideias as mais avançadas para seu tempo. A amizade fraterna entre Bach e Picander se deu na confluência de um mesmo espírito livre e emancipado que pairava sobre ambos. Bach, não obstante seu trabalho de Kantor atrelado à ideologia evangélica, não apenas sofreu por conta das reiteradas divergências com os pastores (tanto que sua obra chegou a ser proibida em Leipzig após sua morte), como também compôs missas para a corte católica em Dresden e ainda, como se pode concluir de seus escritos, tinha o foco existencial não na religião, mas sim na arte, em especial na arte moderna e experimental de seu tempo.
O libreto da obra foi publicado em Leipzig, em 1732, e a primeira encenação com música de Bach ocorreu provavelmente em 1734, na Cafeteria de Gottfried Zimmermann (Leipzig, 1692-1741) – à época se dizia Zimmermannisches Caffe-Hauß.
Em suas crônicas, Picander já sinalizava a importância de se tomar café em Leipzig ao longo do dia: “quem não toma café aqui, será terrivelmente zoado; prepara-se o café de manhã até a noite” (Wer hier nicht Caffee trinckt, wird schrecklich ausgelacht, Man fängt des Morgens an, und kocht bis in die Nacht).
Desde os anos 20 do século XVIII, a Cafeteria Zimmermann sediou os concertos do Collegium Musicum, um ensemble musical dos estudantes da Universidade de Leipzig. De 1729 a 1739, Bach foi o mestre de capela do Collegium Musicum, apresentando na Cafeteria Zimmermann muitas de suas cantatas profanas – como é o caso da Cantada sobre o Café – e suas composições de câmara e sinfônicas.
Após a morte do mecenas Zimmermann, em 1741, os concertos foram transferidos para a Gewandhaus, com a fundação da Associação Musical Großes Concert – ainda no século XVIII denominada Orquestra Gewandhaus, desde então um dos conjuntos sinfônicos mais importantes do mundo.
 
A Cantata sobre o Café é uma encenação satírica. Na trama, o pai rígido, o velho Mandrião (Schlendrian), entra em conflito com sua filha Betinha (Ließgen), a qual não se deixava doutrinar, pois bebia café pelo menos três vezes ao dia. Na Saxônia do século XVIII, contudo, a bebida era proibida para mulheres, por ser estimulante, mesmo libidinosa. O próprio Picander ironizava em suas crônicas: “as mulheres preferem mais o purgatório com café do que o paraíso sem café” (den Frauen wäre das Fegefeuer mit Kaffee lieber als das Paradies ohne Kaffee). Contudo, como bom cidadão de bem, Mandrião entende que para sua filha se casar, a conditio sine qua non é a de que ela deixe de tomar café. Trata-se, por certo, de uma obra percursora dos direitos das mulheres. O libreto de Picander com música de Bach contempla, assim, um feminismo avant la lettre, onde a emancipação das mulheres, representada por Ließgen, uma personagem de brio altivo e segura de si mesma, dá-se não apenas no contexto físico, mas também intelectual, ou seja, uma libertação de corpo e alma – ironizando a moral e os costumes patriarcais.
Para a abertura do programa, num contraponto entre o antigo e o novo, o clássico e o experimental, o regional e o cosmopolita, apresentaremos duas obras novas de nossa autoria, Égalité para orquestra de cordas (obra dedicada a Carlos Alberto Nicolau, patrono do projeto USP Música Criança em São Joaquim da Barra) e a ária Lieben und geliebt zu sein para tenor, violino e orquestra de cordas.

PROGRAMA
 
Gottfried Heinrich Stölzel (Grünstädtel, 1690 – Gotha, 1749)
Bist du bei mir (Bayreuth, 1718) – ária da ópera Diomedes oder die triumphierende Unschuld, com arranjo e orquestração de Rubens Russomanno Ricciardi
 
Vladimir Vavílov (Leningrado, 1925-1973)
Ave Maria de Caccini (Leningrado, ca. 1969), com arranjo e orquestração de Rubens Russomanno Ricciardi
 
Johann Sebastian Bach (Eisenach, 1685 – Leipzig, 1750)
Sobre o Café – Cantata – Fiquem quietos, parem de tagarelar (Über den Caffe – Cantata – Schweigt stille, plaudert nicht), BWV 211, com libreto de Christian Friedrich Henrici, dito Picander (Stolpen junto de Dresden, 1700 – Leipzig, 1764) – obra estreada na Cafeteria Zimmermann de Leipzig, por volta de 1734.
RECITATIVO – Erzähler: Schweigt stille, plaudert nicht / Narrador: Fiquem quietos, parem de tagarelar...
ÁRIA - Schlendrian: Hat man nicht mit seinen Kindern hunderttausend Hudeley / Mandrião: Com suas crianças não se pode permitir cem mil diabruras!
RECITATIVO – Schlendrian & Ließgen: Du böses Kind, du loses Mädgen / Mandrião & Betinha: Você criança desobediente, você menina libertina!
ÁRIA – Ließgen: Ey! wie schmeckt der Caffee süsse / Betinha: Hum! Como é gostoso o café docinho...
RECITATIVO – Schlendrian & Ließgen: Wenn du mir nicht den Caffee läst / Mandrião & Betinha: Se você não parar com essa mania de café.
ÁRIA – Schlendrian: Mädgen, die von harten Sinnen / Mandrião: Meninas, cuja consciência é resistente...
ÁRIA da Suíte em Ré maior n° 3 para cordas BWV 1068 [número de dança]
RECITATIVO – Schlendrian & Ließgen: Nun folge, was dein Vater spricht / Mandrião & Betinha: Siga logo o que teu pai diz!
ÁRIA – Ließgen: Heute noch, lieber Vater, thut es doch / Betinha: Ainda hoje, querido pai, arrume um!
BADINERIE da Suíte em Si menor n° 2 para flauta e cordas BWV 1067 [número de dança]
RECITATIVO – Erzähler: Nun geht und sucht der alte Schlendrian / Narrador: Eis que o velho Mandrião vai e procura...
TERCETO – Erzähler, Schlendrian & Ließgen: Die Katze läßt das Mausen nicht / Narrador, Mandrião & Betinha: O gato não larga do rato...